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Mauricio de Sousa está entre os autores brasileiros que mais influenciaram gerações de leitores. Criador da Turma da Mônica, ele transformou as histórias em quadrinhos em uma porta de entrada para a leitura e acompanhou a infância de milhões de brasileiros desde a década de 1960.
Ao longo de mais de seis décadas, seu universo cresceu, ganhou centenas de personagens e ultrapassou as páginas dos gibis, chegando à televisão, ao cinema, ao teatro, aos jogos e a projetos educacionais.
Assim como muitas crianças da minha geração, aprendi a gostar de ler por meio dos gibis. Antes de conhecer grandes romances e clássicos da literatura, passei horas acompanhando as aventuras da Turma da Mônica.
Infância e o despertar para a leitura
Mauricio de Sousa nasceu em Santa Isabel (SP), em 27 de outubro de 1935.
Filho de Antônio Mauricio de Sousa, barbeiro, compositor, poeta e pintor, e de Petronilha Araújo de Sousa, poetisa, cresceu em um ambiente onde a arte e a literatura sempre estiveram presentes.
Ainda criança frequentava a biblioteca pública de Mogi das Cruzes, onde descobriu livros de aventura, mistério e fantasia. Esse contato precoce com a leitura seria decisivo para sua carreira como desenhista e roteirista.
O início da carreira
Em meados da década de 1950, Mauricio mudou-se para São Paulo em busca de uma oportunidade como desenhista. Como não conseguiu inicialmente uma vaga nessa área, começou a trabalhar como repórter policial na Folha da Manhã.
A experiência no jornalismo não o fez abandonar os desenhos. Em 1959, publicou sua primeira tira, protagonizada pelo cãozinho Bidu e por seu dono, Franjinha. A dupla se tornou o ponto de partida para o universo que mais tarde seria conhecido como Turma da Mônica.
A partir daí, suas histórias passaram a ocupar espaço em diferentes jornais. Em vez de surgir pronta, a turma foi crescendo aos poucos, conforme novos personagens e núcleos eram apresentados aos leitores.
A criação da Turma da Mônica
Depois de Bidu e Franjinha, novos personagens começaram a aparecer nas tiras. Cebolinha surgiu em 1960, enquanto Mônica foi apresentada em 1963, inicialmente como uma personagem secundária nas histórias do menino que trocava o “r” pelo “l”.
Inspirada em uma das filhas de Mauricio, Mônica conquistou rapidamente os leitores. Sua personalidade forte e sua presença transformaram a dinâmica das histórias até que ela assumiu o centro daquele universo. Em 1970, ganhou sua própria revista.
Outros personagens também foram inspirados nos filhos do autor e em pessoas de sua convivência. Magali, por exemplo, recebeu o nome e algumas características de outra filha de Mauricio. Com o tempo, surgiram diferentes núcleos, como os de Chico Bento, Penadinho, Horácio e Astronauta.
Essa variedade permitiu que as histórias transitassem entre humor, cotidiano, vida no campo, fantasia, aventura e ficção científica, sem perder a linguagem acessível que aproximava as crianças da leitura.

Um universo em constante renovação
A capacidade de se adaptar a novos leitores também ajudou esse universo a permanecer vivo. Em 2008, a Turma da Mônica Jovem apresentou versões adolescentes dos personagens, com uma linguagem visual influenciada pelos mangás e histórias voltadas a outro momento da vida dos leitores.
Em 2012, o selo Graphic MSP abriu espaço para que diferentes artistas brasileiros reinterpretassem os personagens em seus próprios estilos. Essas iniciativas mostraram que a obra de Mauricio não precisava permanecer presa a uma única aparência ou fórmula para conservar sua identidade.
Influência japonesa
A relação de Mauricio de Sousa com os quadrinhos japoneses também produziu um encontro cultural importante.
Na década de 1980, ele conheceu Osamu Tezuka, criador de personagens como Astro Boy e considerado um dos grandes nomes do mangá moderno. Os dois se tornaram amigos e imaginaram um projeto que reuniria seus personagens em uma história sobre a preservação da Amazônia.
Tezuka morreu antes que a colaboração pudesse ser realizada, mas a ideia não foi esquecida. Em 2012, as edições 43 e 44 de Turma da Mônica Jovem apresentaram a aventura Tesouro Verde, na qual Mônica e seus amigos encontraram Astro Boy, Kimba e a Princesa Safiri em uma história sobre a proteção da Amazônia.
Mais do que uma influência direta sobre o traço de Mauricio, essa amizade representou uma ponte entre duas importantes tradições dos quadrinhos: a brasileira e a japonesa.

Personagens que atravessam gerações
Poucos personagens brasileiros permanecem tão presentes no imaginário popular quanto a Turma da Mônica.
O universo iniciado em uma tira de Bidu e Franjinha cresceu, acompanhou mudanças na sociedade e encontrou novas maneiras de conversar com crianças, jovens e adultos.
Parte desse legado está na capacidade de Mauricio de Sousa de tratar a leitura como uma experiência próxima, divertida e possível. Seus personagens não ficaram presos à infância de uma única geração: continuam chegando a novos leitores enquanto permanecem na memória daqueles que cresceram com seus gibis.
Algumas histórias terminam quando fechamos a revista. Outras continuam conosco e acabam fazendo parte da nossa própria história como leitores.
Os gibis sempre ocuparam um lugar especial na minha estante. Foram eles que me mostraram que ler também podia ser divertido e despertaram minha curiosidade por histórias cada vez maiores.
Fontes consultadas:
- Academia Paulista de Letras — Mauricio de Sousa
- Câmara Municipal de São Paulo — Mauricio de Sousa
- Japan House São Paulo — Os quadrinhos como ponte entre Brasil e Japão
- Folha de S.Paulo — Turma da Mônica Jovem encontra personagens de Osamu Tezuka — lançamento da colaboração em 2012 e tema ambiental da história.
- Panini — Turma da Mônica Jovem — publicação da primeira série em 2008.
- Panini — Coleção MSP 50 — origem do selo Graphic MSP em 2012.

