Uma das características que mais gostei na série é que Benjamin Stevenson não tenta esconder que seus livros fazem parte de um mesmo universo. Ernest Cunningham continua sendo o narrador, alguns personagens da família reaparecem e acontecimentos anteriores são mencionados naturalmente. Mesmo assim, cada investigação possui início, meio e fim, permitindo que os livros sejam lidos separadamente. Eu mesma fiz o caminho inverso: conheci primeiro este segundo volume e só depois voltei para ler o primeiro.
Depois do título provocativo Todo Mundo da Minha Família Já Matou Alguém, imaginei que seria difícil criar uma continuação com a mesma originalidade. Em vez de repetir a ideia da família, Stevenson muda completamente o cenário e leva Ernest para um festival de escritores de romances policiais realizado a bordo do lendário trem Ghan, que atravessa a Austrália.
É impossível não perceber uma homenagem aos grandes clássicos do gênero, especialmente Assassinato no Expresso do Oriente, de Agatha Christie. A diferença é que Benjamin Stevenson prefere trocar a solenidade pelo humor. Enquanto os detetives clássicos costumam conduzir investigações meticulosas e silenciosas, Ernest Cunningham comenta as próprias regras do romance policial, conversa com o leitor e faz observações bem-humoradas durante toda a investigação.

O cenário também contribui para o suspense. Em um trem cruzando o deserto australiano, praticamente ninguém pode simplesmente desaparecer. Todos continuam viajando juntos, dividindo os mesmos vagões e convivendo com a mesma pergunta: se o criminoso está preso ali dentro, quem será o próximo suspeito?
O que mais me agradou foi perceber que Benjamin Stevenson continua respeitando os grandes mestres do romance policial, mas sem abrir mão de sua própria identidade. As referências a Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e outros autores mostram que ele conhece profundamente o gênero, mas escolhe brincar com suas convenções em vez de apenas repeti-las.
Apesar de sempre me sentir confortável com os romances policiais clássicos, escritos pelos mestres do gênero, sair dessa “caixinha” foi uma experiência muito positiva. Benjamin Stevenson demonstra conhecer profundamente essa tradição, mas decide dialogar com ela em vez de apenas imitá-la.
Durante a leitura, fiquei imaginando como seria Agatha Christie escrevendo nos dias atuais. Na época em que seus romances foram publicados, as notícias viajavam na velocidade dos trens a vapor, das cartas e dos telegramas. Hoje, uma informação percorre o mundo em segundos por meio de um celular. Isso muda completamente a forma de construir um mistério.
Mesmo com todas essas transformações, a essência do romance policial permanece a mesma: despertar a curiosidade do leitor e fazê-lo questionar tudo o que acredita saber. A diferença é que Benjamin Stevenson acrescenta humor, metalinguagem e um narrador que conversa diretamente conosco, criando uma experiência bastante diferente daquela oferecida pelos clássicos.
Talvez tenha sido justamente isso que mais me conquistou. Em vez de abandonar a tradição do gênero, Stevenson mostra que ainda é possível reinventá-la para um leitor do século XXI.
Vale a pena ler?
Recomendo a leitura para quem gostou de Todo Mundo da Minha Família Já Matou Alguém e também para leitores que apreciam romances policiais clássicos, mas procuram uma abordagem mais leve e bem-humorada. Benjamin Stevenson prova que ainda é possível surpreender dentro de um gênero tão tradicional, equilibrando mistério, metalinguagem e humor sem perder o prazer da investigação.





