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Sempre fui fascinada pela cultura japonesa, principalmente pelas histórias de terror. Filmes como Ju-On (呪怨) (O Grito), Ringu (リング) (O Chamado) e Ju-Rei: The Uncanny (呪霊), além de tantas outras produções do gênero, despertaram meu interesse por narrativas que exploram suspense, mistério e elementos da tradição japonesa. Naturalmente, essa curiosidade acabou me levando também à literatura.
Foi assim que conheci Seishi Yokomizo.
Confesso que comecei The Honjin Murders com uma expectativa moderada. Imaginei encontrar apenas mais um romance policial ambientado no Japão, talvez diferente pelo contexto cultural, mas seguindo uma estrutura semelhante à dos mistérios clássicos que já conhecia.
Felizmente, fui surpreendida.

Um mistério de quarto fechado no Japão
Publicado originalmente no Japão como Honjin satsujin jiken (本陣殺人事件), em 1946, The Honjin Murders apresenta o detetive Kosuke Kindaichi em um crime de quarto fechado que se tornou um clássico da literatura policial japonesa. Embora revele a influência dos romances de investigação ocidentais, Yokomizo constrói uma narrativa marcada pelos costumes, pelas relações familiares e pelo ambiente rural japonês do final da década de 1930.
Durante o período Edo, honjin eram hospedarias principais reservadas a senhores feudais e outros viajantes de posição elevada. Mais do que indicar um edifício, o termo também estava ligado a prestígio, hierarquia e tradição. No romance, esse passado ajuda a compreender a importância atribuída à posição da família e aos costumes preservados no ambiente rural.
O que mais me agradou foi a forma como a história é contada. A narrativa conduz a investigação sem pressa e permite que o leitor observe cuidadosamente cada detalhe. Em alguns momentos, eu me percebia como leitora; em outros, como testemunha dos acontecimentos, acompanhando a investigação ao lado do narrador e dos investigadores.
Outro aspecto que gostei foi perceber como o romance preserva a identidade da literatura policial japonesa. Embora seja impossível não lembrar de autores como Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, Seishi Yokomizo cria uma atmosfera própria, em que a cultura, as tradições familiares e os costumes japoneses são tão importantes quanto o próprio crime.
Ao terminar a leitura, percebi que minha curiosidade pela cultura japonesa havia encontrado um novo caminho. Antes ela vinha principalmente do cinema de terror; agora passou também pela literatura policial. The Honjin Murders não apenas correspondeu às minhas expectativas, como despertou minha vontade de conhecer outros autores japoneses do gênero.
De romance policial a visual novel

Décadas depois de sua publicação, a primeira investigação de Kosuke Kindaichi também encontrou espaço nos videogames. Em 2025, a obra recebeu uma adaptação em formato de visual novel e jogo de investigação, Kindaichi Mystery Series: The Honjin Murders, lançada para PC e Nintendo Switch.
A adaptação preserva a proposta central do romance: reunir pistas e depoimentos para reconstruir um crime aparentemente impossível. É uma transformação particularmente interessante para uma história de quarto fechado, já que aquilo que no livro acompanhamos pela narrativa passa a envolver também a participação do jogador na organização das evidências.
Para quem chega a Seishi Yokomizo por outras formas de entretenimento, o jogo também pode funcionar como uma nova porta de entrada para uma obra publicada originalmente em 1946.
Vale a pena ler?
Recomendo The Honjin Murders para leitores que gostam de romances policiais clássicos e desejam conhecer uma perspectiva diferente da tradição europeia. Mais do que apresentar um excelente mistério, Seishi Yokomizo oferece uma porta de entrada para um estilo de investigação que combina lógica, atmosfera e elementos culturais de maneira muito envolvente.
Sobre o autor
Seishi Yokomizo (1902–1981) foi um dos principais nomes da literatura policial japonesa. Criador do detetive Kosuke Kindaichi, presente em mais de setenta histórias, ajudou a consolidar o romance de mistério no Japão. The Honjin Murders, primeira investigação protagonizada por Kindaichi, recebeu em 1948 o primeiro prêmio concedido pela associação que deu origem à atual Mystery Writers of Japan.
Fontes consultadas:
- Pushkin Press — The Honjin Murders
- Pushkin Press — Seishi Yokomizo
- Pushkin Press — entrevista com a neta de Seishi Yokomizo
- IGN Brasil — matéria sobre The Honjin Murders e sua adaptação para visual novel
- Nintendo Brasil — página oficial de Kindaichi Mystery Series: The Honjin Murders

