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À primeira vista, Todo mundo da minha família já matou alguém chama atenção pelo título. Parece exagerado, quase uma brincadeira. Mas Benjamin Stevenson deixa claro desde as primeiras páginas que pretende brincar justamente com as expectativas do leitor.
Curiosamente, minha experiência com este livro começou pelo segundo volume da série, Todo mundo neste trem é suspeito (Everyone on This Train Is a Suspect). Durante a leitura, Ernest Cunningham faz várias referências ao primeiro livro, despertando minha curiosidade. Decidi voltar ao início da série para conhecer melhor o personagem e entender como tudo começou. Foi uma decisão acertada.
Benjamin Stevenson demonstra conhecer profundamente os grandes clássicos do romance policial. Ao longo da narrativa, faz referências a autores como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e outros nomes importantes do gênero. No entanto, sua proposta não é apenas repetir uma fórmula que já deu certo. Pelo contrário: ele brinca com essas regras e cria uma narrativa diferente, bem-humorada e cheia de metalinguagem.
Quando todos carregam alguma culpa
Em muitos romances policiais já sabemos o caminho que será percorrido. Um crime acontece, inicia-se a investigação, surgem pistas, suspeitos são interrogados e, ao final, o culpado é revelado. Stevenson utiliza essa estrutura como ponto de partida, mas logo apresenta uma pergunta curiosa: se o próprio título afirma que todos da família já mataram alguém, onde está o verdadeiro mistério?
Foi exatamente essa ideia que me tirou da minha zona de conforto.

O mais interessante é que Benjamin Stevenson transforma a própria ideia de culpa em parte do mistério. Os personagens não podem ser divididos facilmente entre heróis e vilões. Dependendo do ponto de vista, todos parecem carregar culpa por alguma coisa, mas também possuem razões que tornam seus atos mais complexos do que aparentam à primeira vista.
Outro aspecto que gostei bastante foi a narrativa. Ernest Cunningham conversa diretamente com o leitor, comenta as regras dos romances policiais e faz observações bem-humoradas sobre a própria investigação. Essa abordagem deixa a leitura leve e dinâmica, sem cair naquela sequência previsível de crime, investigação, interrogatórios e resolução.
Benjamin Stevenson consegue prestar uma homenagem aos mestres do gênero sem perder sua própria identidade. O resultado é um romance policial inteligente, divertido e repleto de referências que agradam tanto leitores experientes quanto aqueles que desejam conhecer um estilo diferente de investigação.
Vale a pena ler?
Recomendo a leitura para quem gosta de romances policiais e procura uma história que respeita os clássicos, mas não tem medo de brincar com suas convenções. Se você aprecia Agatha Christie, Arthur Conan Doyle ou Anthony Horowitz, provavelmente encontrará em Benjamin Stevenson uma leitura criativa e surpreendente.
Depois de muitos anos lendo romances policiais clássicos, foi divertido encontrar um autor que respeita essa tradição sem ficar preso a ela. Benjamin Stevenson conseguiu me surpreender não apenas pelo mistério, mas pela forma leve e inteligente como conduz a narrativa. Foi justamente essa experiência que despertou minha vontade de continuar acompanhando Ernest Cunningham nas próximas investigações.
Sobre o autor
Benjamin Stevenson é escritor e comediante australiano. É autor da série de mistérios protagonizada por Ernest Cunningham, na qual combina humor, investigação e uma narração que conversa diretamente com o leitor. Seus livros ultrapassaram dois milhões de exemplares vendidos, e Todo mundo da minha família já matou alguém teve uma adaptação para a televisão anunciada.
Fontes consultadas:
- Penguin Books Australia — Everyone in My Family Has Killed Someone
- ABC Australia — Benjamin Stevenson e a série de Ernest Cunningham
- Penguin Books Australia — Everyone on This Train Is a Suspect
- Editora Intrínseca — Todo mundo da minha família já matou alguém — edição brasileira da obra, com informações editoriais, tradução e publicação no Brasil.

