Literatura que permanece.

Durante muito tempo, conheci Dolly Parton principalmente pela música e por uma imagem impossível de confundir: cabelos loiros, maquiagem marcada, roupas brilhantes e uma presença profundamente ligada à tradição da música country. Eu sabia quem ela era como ícone popular, mas somente depois de sua morte descobri uma dimensão de seu trabalho que mudou a maneira como passei a enxergá-la.

A fama pode ampliar a voz de uma pessoa, mas aquilo que ela decide fazer com esse alcance também participa de seu legado. Dolly Parton transformou uma dificuldade vivida dentro da própria família em uma iniciativa de acesso aos livros. Seu pai, Robert Lee Parton, não sabia ler nem escrever. Em homenagem a ele, ela criou a Imagination Library, primeiro para as crianças de sua região e, mais tarde, para milhões de famílias em diferentes países.

Não conheci essa história enquanto ela estava viva. Cheguei a ela apenas agora, quando as homenagens passaram a recordar não somente a artista, mas também aquilo que ela construiu fora dos palcos. Por isso, este texto nasce de uma descoberta recente: a de que uma mulher conhecida mundialmente por cantar também escolheu usar sua projeção para que crianças de histórias muito diferentes pudessem receber seus próprios livros.

Talvez uma das formas mais humanas de responder às dificuldades seja impedir que elas se repitam para outras pessoas. Dolly não poderia mudar a infância do pai, mas ajudou a criar condições para que outras crianças encontrassem os livros desde os primeiros anos de vida.

Uma homenagem ao pai transformada em projeto

Dolly Rebecca Parton nasceu em 19 de janeiro de 1946, no Tennessee, nos Estados Unidos. Tornou-se cantora, compositora, atriz, escritora e uma das figuras mais reconhecidas da cultura popular. Sua imagem pública sempre foi marcante e deliberada, mas não resume a artista nem o alcance de suas escolhas.

Em 1995, por meio da Dollywood Foundation, ela criou a Dolly Parton’s Imagination Library. O projeto nasceu no condado de Sevier, região onde Dolly cresceu, e começou a enviar livros às crianças locais no ano seguinte.

A inspiração veio de seu pai. Dolly o descrevia como um homem muito inteligente, embora ele nunca tivesse aprendido a ler e escrever. Em vez de tratar essa dificuldade apenas como uma lembrança familiar, ela a transformou em uma pergunta prática: como ajudar as crianças a desenvolver uma relação com os livros antes mesmo de chegarem à escola?

A resposta não foi construir uma biblioteca que dependesse da visita das famílias. Os livros iriam até elas.

Um livro por mês, no nome de cada criança

O funcionamento da Imagination Library é simples de explicar, embora sua realização exija uma grande rede de parceiros. Nas regiões participantes, crianças inscritas recebem gratuitamente pelo correio um livro por mês, do nascimento aos cinco anos, independentemente da renda da família.

Representação de uma mulher loira retirando livros infantis de uma caixa diante de uma criança.
Imagem: A Imagination Library envia gratuitamente livros adequados à idade das crianças participantes.

As obras são adequadas a cada faixa etária e selecionadas por profissionais ligados à literatura e à alfabetização infantil. O pacote chega à residência com o nome da própria criança. Esse detalhe transforma o envio em algo pessoal: não é somente um livro disponível na casa, mas um presente dirigido a alguém que começa a reconhecer que aquela história também lhe pertence.

O programa é financiado de forma compartilhada pela fundação e por parceiros locais. Essa organização permitiu que uma iniciativa criada em uma comunidade do Tennessee fosse adotada em outras regiões. A expansão nacional começou em 2000. Depois, o projeto chegou ao Canadá, ao Reino Unido, à Austrália e à República da Irlanda.

Em 2003, a Imagination Library alcançou seu primeiro milhão de livros enviados. Duas décadas depois, em 2023, chegou a 200 milhões. Em 2025, quando completou 30 anos, ultrapassou a marca de 300 milhões de livros distribuídos gratuitamente.

O número impressiona, mas o sentido do projeto aparece melhor quando voltamos à unidade mais simples: uma criança, um endereço e um livro chegando pelo correio todos os meses.

Ter livros por perto também abre caminhos

O acesso a um livro não garante sozinho a alfabetização de uma criança. Ainda são necessários tempo, acompanhamento, escola, leitores adultos e condições adequadas para aprender. Mesmo assim, possuir livros em casa cria oportunidades que não existiriam sem eles: observar imagens, ouvir histórias, fazer perguntas, manusear páginas e associar a leitura a momentos de atenção e convivência.

A própria Imagination Library reúne pesquisas realizadas em diferentes comunidades. Os resultados indicam que o programa é bem recebido pelas famílias e apresenta efeitos promissores no ambiente de leitura doméstico, no interesse das crianças pelos livros e no desenvolvimento de habilidades iniciais de leitura. Algumas famílias relatam possuir mais livros e ler em voz alta com maior frequência depois de entrar no programa.

Esses resultados não transformam uma iniciativa em solução para todas as desigualdades educacionais. Eles mostram algo mais concreto: quando uma barreira de acesso é retirada, novas experiências de leitura podem começar.

Uma lembrança sobre o primeiro passo

A história de Dolly também me trouxe uma lembrança. Aos 14 anos, quando participava como bibliotecária mirim na escola, ajudei uma funcionária adulta a iniciar a alfabetização. Ela sabia escrever o próprio nome, mas não se sentia à vontade para aprender junto das crianças pequenas. Pedi orientação a uma professora e começamos pelas vogais e pelas sílabas mais simples.

Foi apenas um começo para uma pessoa, mas vi como a possibilidade de aprender a animou. Naquela idade, eu ainda tentava compreender como alguém poderia chegar à vida adulta sem ter encontrado uma oportunidade adequada de alfabetização. O que ficou na memória, porém, não foi um julgamento sobre sua história: foi o entusiasmo que surgiu quando ela percebeu que podia começar.

Dolly Parton possuía recursos e projeção para transformar esse mesmo impulso numa iniciativa mundial. Nem todos podem criar uma fundação ou distribuir milhões de livros, mas isso não torna pequenas ações insignificantes. Podemos ler com uma criança, oferecer um livro, incentivar alguém a voltar a estudar, encaminhar uma pessoa para um programa de alfabetização ou compartilhar aquilo que sabemos.

Facilitar um primeiro passo também é ampliar o acesso à leitura.

Um legado que continua chegando pelo correio

Dolly Parton morreu em 25 de agosto de 2026, aos 80 anos. Ao comunicar sua morte, a família pediu que, em vez de flores, as pessoas considerassem contribuir com a Imagination Library. O pedido conecta a despedida da artista à continuidade da obra que ela escolheu construir.

Representação de uma cantora country loira com chapéu e violão diante do público ao pôr do sol.
Imagem: Dolly Parton transformou o alcance conquistado pela música em apoio à leitura infantil.

Uma homenagem póstuma pode recordar músicas, prêmios e uma carreira extraordinária. Neste caso, porém, também pode reconhecer uma decisão: usar fama, recursos e capacidade de mobilização para facilitar o encontro de outras pessoas com os livros.

Eu soube dessa história tarde, apenas depois da partida de Dolly. Ainda assim, conhecê-la ampliou o significado que seu nome passou a ter para mim. A artista de aparência inconfundível também deixou uma estrutura capaz de continuar funcionando além de sua presença nos palcos.

Seu pai não teve acesso à alfabetização. Em resposta, milhões de crianças passaram a receber livros com o próprio nome escrito no pacote. Entre uma história familiar e uma iniciativa mundial, Dolly Parton construiu uma ponte — e fez dela um caminho que outras pessoas podem continuar percorrendo.

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