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Poucos escritores brasileiros continuam despertando tantas leituras e interpretações quanto Machado de Assis. Seus romances e contos atravessaram mais de um século sem perder a capacidade de provocar dúvidas, expor contradições e fazer o leitor desconfiar até mesmo de quem conduz a narrativa.
Para compreender a permanência de sua obra, é preciso conhecer não apenas sua trajetória, mas também a maneira particular como observou a sociedade e o comportamento humano.
Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro. Filho de Francisco José de Assis, pintor de paredes e descendente de pessoas escravizadas, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, de origem açoriana, cresceu em condições modestas.
Sua formação intelectual aconteceu, em grande parte, fora de uma educação escolar regular. Ainda jovem, aproximou-se do ambiente das tipografias, jornais e círculos literários do Rio de Janeiro, trabalhando como aprendiz de tipógrafo e posteriormente como revisor e jornalista.
Esse contato com a imprensa seria importante durante toda a sua trajetória. Machado escreveu crônicas, críticas, contos e outros textos para periódicos, acompanhando de perto as transformações políticas, sociais e culturais de seu tempo.
Paralelamente à literatura e ao jornalismo, Machado construiu uma longa carreira no serviço público, que lhe proporcionou estabilidade profissional. Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, com quem viveu até a morte dela, em 1904. A perda da esposa marcou profundamente seus últimos anos.
Sua produção literária foi extensa e atravessou diferentes gêneros, mas foram especialmente seus contos e romances que consolidaram sua posição na literatura brasileira.

Uma escrita que exige a participação do leitor
Uma das características mais fascinantes de Machado de Assis é a maneira como ele constrói seus narradores.
Eles conversam com o leitor, interrompem a narrativa, fazem comentários, escondem informações, apresentam julgamentos e, algumas vezes, nos deixam diante de versões dos acontecimentos que não podem ser aceitas simplesmente como verdade.
Essa relação cria uma leitura muito particular. Machado não entrega respostas prontas.
Em Dom Casmurro, por exemplo, acompanhamos os acontecimentos pela memória e pelo ponto de vista de Bentinho. É justamente essa perspectiva que transformou uma questão do romance em uma discussão que atravessou gerações de leitores.
A dúvida não enfraquece a história. Pelo contrário: faz parte de sua força.
Machado de Assis e o Realismo brasileiro
A publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881, é tradicionalmente considerada um dos grandes marcos do Realismo no Brasil.

O romance representou também uma transformação importante na própria obra de Machado. A partir desse período, sua literatura tornou-se ainda mais marcada pela ironia, pela análise psicológica e pela crítica às convenções sociais.
Mas o Realismo machadiano não depende apenas da descrição da sociedade brasileira do século XIX.
Machado observa comportamentos.
Vaidade, ciúme, interesse, ambição, aparência social, relações de poder e autoengano aparecem em personagens que pertencem a outra época, mas cujas contradições continuam reconhecíveis.
Talvez esteja justamente aí uma das razões de sua permanência.
Entre os romances mais conhecidos dessa fase estão Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Nos contos, Machado também desenvolveu algumas de suas observações mais precisas sobre ambição, aparência social e autoengano, em textos como O Alienista, A Cartomante, Missa do Galo e Pai contra Mãe.
A sociedade brasileira vista por Machado
Ler Machado de Assis também permite observar aspectos do Brasil em que ele viveu: uma sociedade marcada pela escravidão, por profundas desigualdades e por rígidas convenções sociais.
Machado presenciou acontecimentos fundamentais da história brasileira, entre eles a Abolição da Escravatura, em 1888, e a Proclamação da República, em 1889.
Essas transformações não aparecem em sua literatura simplesmente como uma aula de história. Elas fazem parte do mundo em que seus personagens vivem e das relações que estabelecem entre si.
Por meio da ironia e da observação das aparências sociais, Machado expõe contradições que muitas vezes estão escondidas justamente naquilo que seus personagens consideram normal.
Academia Brasileira de Letras
Machado de Assis também teve papel fundamental na criação da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897.

Foi seu primeiro presidente e permaneceu no cargo até sua morte, em 1908. Ocupou a cadeira nº 23, cujo patrono é José de Alencar.
Sua atuação na Academia reforçou uma posição que sua obra já havia conquistado: Machado havia se tornado uma das figuras centrais da vida literária brasileira.
Meu primeiro encontro com Machado de Assis
Meu primeiro contato com Machado aconteceu com a leitura de Dom Casmurro, ainda na adolescência.
A história de Bentinho e Capitu me despertou algo que considero uma das melhores experiências que um livro pode provocar: a dúvida.
Depois da leitura, encontrei interpretações diferentes sobre os acontecimentos e resolvi ler o romance novamente. Queria descobrir se havia deixado passar alguma pista.
A releitura não encerrou completamente a questão.

E talvez essa seja justamente uma das qualidades de Machado: seus livros permitem que o leitor volte às mesmas páginas e encontre novas perguntas.
Uma porta para outros clássicos
Machado de Assis também despertou em mim o interesse por outros autores da literatura brasileira do século XIX.
Depois dele vieram leituras como A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo; Iracema, de José de Alencar; A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães; e Inocência, de Visconde de Taunay.
São obras muito diferentes entre si e pertencentes a momentos distintos da nossa literatura, mas fizeram parte da descoberta de que os clássicos não precisavam permanecer apenas como nomes encontrados nos livros escolares.
Eles podiam ser lidos. E, algumas vezes, relidos.

Por que Machado de Assis ainda permanece?
Machado morreu em 29 de setembro de 1908, no Rio de Janeiro, mas seus livros continuam sendo publicados, estudados e descobertos por novas gerações.
Talvez chamar uma obra de clássica tenha justamente algo a ver com isso.
Não significa apenas reconhecer que ela foi importante em determinado momento da história. Significa perceber que, apesar da passagem do tempo, ainda encontramos alguma coisa nela capaz de nos provocar.
Machado escreveu sobre pessoas de outro século, dentro de uma sociedade muito diferente da nossa. Mesmo assim, seus personagens continuam mentindo para si mesmos, sentindo ciúme, buscando reconhecimento, defendendo interesses e tentando controlar a maneira como serão vistos pelos outros.
O cenário mudou. As contradições humanas, nem tanto.
E talvez seja por isso que, mais de um século depois, ainda continuamos discutindo Machado de Assis.
Fontes consultadas:
- Academia Brasileira de Letras — Machado de Assis: biografia — trajetória, datas biográficas, produção literária e Cadeira nº 23.
- Academia Brasileira de Letras — A liderança de Machado de Assis — participação na fundação da Academia e escolha como seu primeiro presidente.
- Enciclopédia Itaú Cultural — Memórias Póstumas de Brás Cubas — publicação da obra em 1881 e sua importância como marco do Realismo brasileiro.

