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Há histórias engraçadas porque nos fazem rir. E há aquelas que só parecem engraçadas depois que o tempo passa e percebemos como a vida conseguiu nos levar de um lugar que parecia definitivo para outro completamente diferente.
Foi assim que interpretei Funny Story, de Emily Henry.
Publicado originalmente em 2024, Funny Story chegou ao Brasil no mesmo ano pela Verus Editora, com tradução de Ana Rodrigues, sob o título Nem te conto.
O romance acompanha Daphne, uma bibliotecária infantil que acreditava ter sua vida encaminhada ao lado do noivo, Peter. Os dois haviam se mudado para a cidade natal dele e planejavam se casar, até que Peter percebe que está apaixonado por Petra, sua amiga de infância. Daphne se vê então em uma cidade que escolheu por causa daquele relacionamento, distante de sua própria família e sem a vida que imaginava ter.
É uma premissa aparentemente simples e até irônica. Mas foi justamente o que existe por trás dela que mais me interessou durante a leitura.
Quando uma vida deixa de ser aquela que imaginávamos

Daphne é uma personagem que parece fácil de conhecer. Ela não é construída como alguém misterioso que esconde grandes segredos do leitor. Ainda assim, Emily Henry não entrega seu passado inteiro de uma vez.
As informações aparecem aos poucos. Uma situação do presente leva a uma lembrança, uma conversa revela outra experiência e, pouco a pouco, começamos a compreender melhor suas relações familiares, suas escolhas e a maneira como ela construiu sua própria vida.
Essa estrutura me manteve interessada porque não queria apenas descobrir o que aconteceria depois. Queria entender como Daphne havia chegado até ali.
Quando estamos vivendo uma fase aparentemente estável, dificilmente passamos os dias nos perguntando quando tudo vai acabar. Fazemos planos acreditando naquela realidade. É depois de uma ruptura que surgem perguntas que antes não existiam: quando alguma coisa começou a mudar? O que não percebemos? Por que fizemos determinadas escolhas?
Daphne precisa lidar com muitas dessas perguntas ao mesmo tempo.
Os amigos que também pertenciam ao relacionamento
Uma das questões que mais me chamou a atenção em Funny Story foi a amizade.
O fim de um relacionamento não significa necessariamente perder apenas aquela pessoa. Existem amigos, lugares, hábitos e relações que foram construídos durante a vida em comum. Quando tudo termina, podemos descobrir que algumas coisas que considerávamos nossas estavam muito mais ligadas ao relacionamento do que imaginávamos.
A gente sempre pensa que os nossos amigos são nossos amigos, e não nossos amigos partilhados.
É uma situação estranha, mas bastante humana. Há pessoas presentes enquanto tudo está bem que podem desaparecer justamente quando alguém enfrenta solidão, desemprego, dificuldades familiares ou simplesmente precisa conversar.
Ninguém precisa resolver os problemas de outra pessoa. Muitas vezes nem poderia. Mas permanecer por perto também é uma forma de amizade.
No caso de Daphne, a ruptura expõe várias dessas relações e faz com que ela precise observar não apenas quem permaneceu ao seu redor, mas também quem ela é quando deixa de existir como parte de um casal.
Uma personagem construída em camadas

É nessa reconstrução que Funny Story funciona melhor para mim.
Família, amizade, trabalho, pertencimento e relacionamentos vão se entrelaçando enquanto conhecemos novas partes de Daphne. Algumas atitudes que inicialmente poderiam parecer apenas características de sua personalidade começam a ganhar contexto.
Isso também impede que o romance seja apenas uma história sobre substituir uma pessoa por outra.
Miles, que também foi atingido pela situação que colocou Daphne naquela posição, naturalmente ganha importância. A relação entre os dois proporciona alguns dos momentos mais leves e irônicos do livro, mas a transformação de Daphne não depende apenas da existência de um novo interesse amoroso.
Há um amadurecimento que envolve recuperar o controle sobre a própria vida.
Às vezes podemos construir planos tão ligados a outra pessoa que só percebemos isso quando aquela estrutura desaparece. A pergunta deixa então de ser apenas “com quem vou ficar?” e passa a ser “o que desta vida realmente pertence a mim?”.
Afinal, qual é a graça de Funny Story?
Embora o livro tenha humor e utilize elementos conhecidos das comédias românticas, minha experiência de leitura não foi exatamente a de uma comédia.
Existe um peso emocional que acompanha a história do começo ao fim. As situações engraçadas e os diálogos mais leves não eliminam questões relacionadas a abandono, família, amizade, insegurança e à necessidade de reconstruir a própria vida.
Por isso, o próprio título acabou adquirindo outro significado para mim.
Em português, podemos dizer “como a vida é engraçada” sem estarmos falando de alguma coisa que provoque risadas. Nesse contexto, “engraçado” pode significar curioso, estranho ou inesperado.
É olhar para trás e pensar: eu tinha certeza de que minha vida seria daquela maneira e agora estou aqui.
A própria Emily Henry já comentou que términos podem ser terríveis enquanto acontecem e, algum tempo depois, parecer engraçados quando vistos em retrospecto. Essa combinação entre emoções dolorosas e humor também faz parte da maneira como a autora enxerga suas histórias de amor. Talvez seja justamente aí que esteja a graça de Funny Story.
Não necessariamente em rir da história de Daphne, mas em acompanhar uma personagem descobrindo que o fim da história que imaginava viver também pode ser o começo de uma história que finalmente pertence a ela.
Sobre o livro
Funny Story foi publicado originalmente em 23 de abril de 2024 pela Berkley, selo da Penguin Random House. Emily Henry é uma escritora norte-americana conhecida por romances contemporâneos como Beach Read, People We Meet on Vacation, Book Lovers e Happy Place. A autora estudou escrita criativa no Hope College.
Em seus romances, Henry costuma combinar relacionamentos amorosos com questões emocionais e familiares, sem tratar o romance como algo separado das outras experiências que transformam uma pessoa.
Funny Story segue essa característica. É um romance leve em muitos momentos, mas não vazio de conflitos. Seus personagens têm problemas reconhecíveis, tomam decisões questionáveis, repensam escolhas e descobrem coisas sobre si mesmos enquanto tentam seguir adiante.
Foi justamente essa mistura que fez a história funcionar para mim.
Fontes consultadas:
- Penguin Random House — Funny Story, de Emily Henry
- Publishers Weekly — resenha de Funny Story
- Publishers Weekly — histórico bibliográfico de Emily Henry

