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Durante muito tempo, O Guia do Mochileiro das Galáxias foi um daqueles livros que eu sabia que existiam, sabia que faziam parte da ficção científica, mas continuava adiando.
Não era exatamente uma resistência ao livro. Eu simplesmente tinha criado uma impressão antes mesmo de lê-lo: a de que seria uma grande piada ambientada no espaço.
Naquele momento, eu ainda estava muito ligada a determinados autores e a uma ideia talvez mais fechada da ficção científica. Queria continuar minhas leituras de Sherlock Holmes, conhecer mais de Agatha Christie e avançar por autores que já faziam parte do meu repertório. Com o tempo, porém, outras leituras foram abrindo esse caminho.
E então pensei: por que não dar uma oportunidade a um livro que eu estava julgando sem sequer ter lido?
Ainda bem que dei.
Antes do livro, veio o rádio
Há algo curioso na história de O Guia do Mochileiro das Galáxias: o livro pelo qual conhecemos a obra não foi sua primeira forma.
Douglas Adams criou The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy originalmente como uma série radiofônica. A primeira transmissão aconteceu na BBC Radio 4, em março de 1978. O romance foi publicado no ano seguinte, em 1979. A história continuaria crescendo em diferentes formatos, incluindo televisão, teatro e cinema.
O primeiro romance também deu início àquela que Douglas Adams chamaria, com o humor característico da própria obra, de uma “trilogia em cinco partes”. São cinco romances escritos por Adams dentro da série.
Saber dessa origem radiofônica depois da leitura torna algumas características do livro ainda mais interessantes. Há um ritmo muito próprio na sucessão de acontecimentos, diálogos e situações absurdas, quase como se cada nova ideia precisasse superar a anterior.
Uma premissa que já começa pelo absurdo

Arthur Dent está preocupado com um problema bastante terrestre: sua casa está prestes a ser demolida para dar lugar a uma obra.
Só que esse problema rapidamente ganha outra dimensão.
É o suficiente para entender de onde a história parte. Contar muito mais seria justamente tirar do leitor parte da graça de descobrir até onde Douglas Adams pretende levar aquela situação.
E ele pretende levá-la muito longe.
O interessante é que o livro estabelece desde cedo sua própria lógica. Depois de determinado ponto, parei de pensar “isso é absurdo” e comecei praticamente a esperar pelo próximo absurdo.
E daí? Eu queria continuar.
Ficção científica não precisa se levar tão a sério

Talvez essa tenha sido minha maior descoberta com O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Eu acho que ficção científica e humor têm muito a ver. Por que não?
O gênero pode discutir ciência, tecnologia, sociedades, política, futuro e nossa relação com o desconhecido sem necessariamente fazer tudo isso de maneira solene.
Douglas Adams escolhe o humor e o absurdo.
E por trás deles existem coisas estranhamente familiares.
Uma das que mais me divertiram foi a burocracia. Nossa vida na Terra já é cercada por regras, procedimentos, autorizações e decisões tomadas por estruturas que parecem maiores do que nós. Então viajamos para o espaço e descobrimos que, aparentemente, o Universo também pode ser burocrático.
A escala mudou. O problema, nem tanto.
Há algo muito interessante nessa inversão. Imaginamos frequentemente o encontro com outros mundos como a descoberta de algo completamente diferente de nós. Adams brinca justamente com a possibilidade contrária: talvez ampliemos a escala e encontremos novamente comportamentos que conhecemos muito bem.
O absurdo também pode dizer alguma coisa
É fácil reduzir O Guia do Mochileiro das Galáxias a um livro engraçado.
Foi justamente essa imagem que me afastou dele durante algum tempo.
Só que o humor não está colocado por cima da ficção científica. Ele faz parte da maneira como Douglas Adams constrói aquele universo.
O absurdo permite exagerar aquilo que já existe até que possamos olhar novamente para coisas bastante comuns. Burocracia, poder, regras e a própria importância que atribuímos à humanidade aparecem deslocados para uma escala galáctica.
Isso não transforma o livro em um tratado político ou filosófico disfarçado de comédia. Também não precisa.
Às vezes, uma piada consegue levantar uma questão e continuar sendo uma piada.
Outra maneira de encontrar a ficção científica
Quando comecei a ampliar minhas leituras dentro do gênero, percebi que não precisava procurar sempre a mesma experiência.
Autores como Isaac Asimov, Frank Herbert, Ursula K. Le Guin ou C. S. Lewis podem partir de preocupações e caminhos completamente diferentes. E isso é justamente uma das riquezas da ficção científica.
Até mesmo uma obra contemporânea como Devoradores de Estrelas, de Andy Weir, consegue encontrar espaço para o humor em meio a conceitos científicos e situações muito diferentes das criadas por Douglas Adams.
Não são livros equivalentes, nem usam o humor da mesma maneira.
A comparação que ficou para mim é outra: uma história não deixa de ser ficção científica porque consegue fazer o leitor rir.
Depois de tantas leituras mais densas, também foi agradável encontrar uma obra em que eu simplesmente podia acompanhar aquela viagem e pensar: “Nossa, que absurdo.”
E continuar lendo.
Vale a pena ler O Guia do Mochileiro das Galáxias?
Para mim, a resposta acabou sendo muito mais simples do que eu esperava.
Eu precisava parar de decidir o que aquele livro era antes de lê-lo.
Encontrei uma ficção científica divertida, absurda e muito consciente do próprio absurdo. Uma história que não precisa abandonar ideias interessantes para fazer humor e que, ao contrário, frequentemente encontra justamente no humor uma maneira de apresentá-las.
O Guia do Mochileiro das Galáxias também me lembrou de algo importante como leitora: conhecer bem um gênero não significa estabelecer limites para aquilo que ele pode ser.
Eu pretendia ler o primeiro livro e decidir depois se continuaria a série.
Gostei. Então a viagem pode continuar.
Fontes consultadas:
- Pan Macmillan — página oficial de The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy: informações editoriais sobre a obra e Douglas Adams
- Pan Macmillan — The Original Hitchhiker’s Guide to the Galaxy Radio Scripts: usada principalmente para confirmar a origem radiofônica da obra e seu desenvolvimento a partir da BBC Radio 4.
- Pan Macmillan — guia da série Hitchhiker’s: usamos para conferir a sequência literária e a brincadeira da “trilogia em cinco partes”

