Literatura que permanece.

Devoradores de Estrelas, publicado originalmente como Project Hail Mary, de Andy Weir, começa com um homem que precisa descobrir não apenas onde está, mas quem é.

Ryland Grace desperta muito longe da Terra sem compreender exatamente o que aconteceu. Aos poucos, enquanto tenta entender o ambiente ao seu redor, suas lembranças começam a reconstruir uma segunda história: a do homem que existia antes daquela missão.

São quase dois começos acontecendo ao mesmo tempo.

No presente, temos alguém que precisa descobrir o que fazer. No passado, conhecemos um professor e cientista cuja maneira de pensar ajuda a explicar como uma pessoa aparentemente tão distante de uma missão espacial acabou envolvida em algo tão extraordinário.

O início exige alguma paciência, mas existe uma razão para isso. Grace sabe fazer coisas que ainda não sabe por que sabe. E a ciência acaba funcionando não apenas como instrumento para resolver problemas, mas também como uma maneira de reconstruir sua própria história.

Afinal, o que significa Project Hail Mary?

Ryland Grace dá uma aula sobre estrelas enquanto estudantes acompanham sua explicação em uma sala de aula.
Imagem: representação de Ryland Grace como professor, uma das partes de sua história reconstruídas ao longo de Devoradores de Estrelas.

Durante a leitura, uma coisa me intrigou antes mesmo de compreender a missão: o próprio título original.

O que exatamente significa Hail Mary?

Literalmente, a expressão corresponde a “Ave Maria”. No inglês americano, porém, Hail Mary também passou a ser usada para uma tentativa desesperada e improvável, feita quando praticamente não restam outras alternativas. O uso se tornou especialmente conhecido no futebol americano, no chamado Hail Mary pass: uma jogada longa e arriscada quando é preciso tentar algo extraordinário.

Entender a expressão ajuda a compreender a força do título original. Project Hail Mary não nos diz exatamente qual é o problema. Diz algo sobre a dimensão dele.

Estamos diante de uma última tentativa.

E descobrir por que uma tentativa tão extrema se tornou necessária faz parte da história de Grace.

A importância de perguntar “e se?”

Conforme conhecemos Ryland Grace, descobrimos alguém acostumado a questionar.

Ele não aceita uma explicação simplesmente porque ela parece conveniente ou porque outras pessoas já a consideram estabelecida. Existe nele uma inquietação que considero essencial à ciência: formular outra hipótese, testar novamente e perguntar:

E se estivermos errados?

Esse comportamento nem sempre torna sua relação com outros cientistas confortável. Questionar aquilo que parece resolvido pode incomodar.

Mas o que acontece quando aquilo que sabemos já não é suficiente?

Andy Weir faz do raciocínio científico uma parte importante da narrativa. Grace observa um problema, trabalha com o conhecimento disponível, formula hipóteses, testa possibilidades e precisa rever suas conclusões quando os resultados não correspondem ao esperado.

A solução não aparece simplesmente porque o protagonista é inteligente. Existe tentativa. Existe erro. Existe observação. E existe a disposição para abandonar uma explicação quando as evidências apontam para outro caminho.

Por isso, apesar da quantidade de ciência presente no romance, não senti que o livro estivesse aplicando uma prova ao leitor.

A ciência faz parte da aventura.

Saber não significa estar preparado

Ryland Grace em um ambiente de pesquisa cercado por anotações, livros, telescópio e imagens astronômicas.
Imagem: representação de Ryland Grace em meio à pesquisa científica, elemento central de Devoradores de Estrelas.

Foi dessa característica de Grace que surgiu uma das questões que mais permaneceram comigo depois da leitura. Uma pessoa pode compreender profundamente um problema sem necessariamente possuir todas as habilidades necessárias para executar aquilo que precisa ser feito.

Há quem pesquise. Há quem coordene. Há quem execute. Há quem possua treinamento especializado para determinadas situações. Nem sempre essas capacidades estão reunidas na mesma pessoa.

Um excelente jogador não necessariamente será o melhor técnico. Da mesma maneira, dominar a ciência envolvida em um projeto não transforma automaticamente alguém em astronauta.

Ser a pessoa que melhor compreende um problema significa necessariamente ser a pessoa mais preparada para enfrentá-lo?

Devoradores de Estrelas deixa essa pergunta ganhar importância enquanto conhecemos melhor Grace.

E gostei dessa ambiguidade porque competência não precisa ser confundida com heroísmo. Podemos ser muito bons naquilo que fazemos e ainda encontrar limites quando somos colocados diante de uma função para a qual nunca nos preparamos.

Ciência como parte da aventura

Física, química, biologia, astronomia e cálculos aparecem ao longo de Devoradores de Estrelas. Ainda assim, eu não definiria minha experiência como a de enfrentar um livro científico difícil.

Andy Weir geralmente apresenta a ciência porque existe alguma coisa que precisa ser compreendida ou resolvida. Primeiro surge o problema. Depois começamos a pensar nas ferramentas disponíveis para enfrentá-lo.

Isso muda bastante a experiência. Em vez de perguntar ao leitor “você conhece esse conceito?”, o livro parece perguntar:

Temos este problema. O que sabemos que poderia nos ajudar?

Então começa outra tentativa.

Essa estrutura permite que Devoradores de Estrelas se aproxime de uma ficção científica bastante técnica sem transformar o conhecimento científico em uma barreira permanente para acompanhar a aventura.

Não precisamos saber tudo que Grace sabe. Precisamos compreender por que determinada pergunta importa naquele momento.

Quando aquilo que sabemos não basta

A situação que coloca toda essa ciência em movimento é extrema. Não quero explicar seus mecanismos porque uma parte importante da experiência está justamente em descobrir, junto com Grace, o tamanho do problema e aquilo que aconteceu antes de ele despertar.

Mas existe uma questão que podemos fazer sem conhecer essas respostas. Quando as soluções conhecidas não funcionam, quem procuramos?

A pessoa que seguirá aquilo que já sabemos ou aquela que está disposta a considerar uma possibilidade que parece absurda?

É fácil valorizar alguém que questiona depois que a pergunta produz uma resposta. Muito mais difícil é decidir quanto estamos dispostos a confiar nessa pessoa quando ainda não sabemos se ela está certa.

E Devoradores de Estrelas acrescentou para mim outra questão ainda mais desconfortável:

até onde podemos decidir que alguém deve assumir determinada responsabilidade simplesmente porque acreditamos que essa pessoa é a mais capaz?

Conhecimento, responsabilidade e escolha acabam ocupando o mesmo espaço. Não acho que o livro ofereça uma resposta tão simples quanto parece.

Vale a pena ler Devoradores de Estrelas?

Para mim, Devoradores de Estrelas funcionou porque a ciência não diminui a aventura. Ela é parte dela.

O começo exige alguma paciência enquanto presente e memória começam a formar uma mesma história. Depois, aquilo que inicialmente parecia apenas desorientação passa a ter função na maneira como conhecemos Ryland Grace.

E talvez seja justamente Grace que tenha ficado comigo. Não apenas pelo que ele sabe, mas pela maneira como chega ao conhecimento.

Observar. Duvidar. Formular uma hipótese. Testar. Errar. Tentar novamente.

Mais do que acompanhar alguém procurando respostas, gostei de acompanhar alguém capaz de continuar fazendo perguntas.

Porque, diante de um problema para o qual aparentemente não existe solução, talvez uma das perguntas mais importantes continue sendo também uma das menores:

E se?

Fontes consultadas:

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