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É difícil chegar a O Médico e o Monstro sem saber alguma coisa sobre a história.
Muito antes de ler Robert Louis Stevenson, eu já havia encontrado Jekyll e Hyde em pedaços de filmes antigos, referências na televisão e histórias que retomavam a ideia de uma pessoa capaz de se transformar em outra. O Professor Aloprado, de Jerry Lewis, é um exemplo conhecido dessa permanência cultural, posteriormente retomado também pelo cinema com Eddie Murphy.
Por isso, quando decidi finalmente ler o livro, tentei afastar essas referências o máximo possível.
Depois de Frankenstein, de Mary Shelley, eu queria continuar explorando obras daquele período e daquela atmosfera sem procurar novas adaptações antes da leitura. Sabia que seria impossível esquecer completamente aquilo que a cultura popular já havia contado, mas ainda queria descobrir quanto da imagem que eu tinha de Jekyll e Hyde realmente estava no livro.
E, durante algum tempo, escolhi permanecer na dúvida.
Um estranho caso antes de ser um médico e um monstro
Publicado em 1886, o livro recebeu originalmente o título Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde.
No Brasil, tornou-se amplamente conhecido como O Médico e o Monstro, título hoje inseparável da obra. Não me interessa discutir se essa adaptação foi boa ou ruim, mas ela produz uma diferença curiosa na maneira como começamos a leitura.
O título brasileiro já nos apresenta duas posições: existe um médico e existe um monstro. Stevenson, no original, apresenta primeiro um estranho caso envolvendo o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde.
Tentei me aproximar mais dessa ideia durante a leitura. Em vez de procurar imediatamente quem era o monstro, preferi acompanhar a dúvida.
Duas pessoas acima de qualquer suspeita
A história chega até nós principalmente por meio de Gabriel John Utterson, advogado e amigo do respeitado Dr. Henry Jekyll.
Utterson começa a se interessar pela relação aparentemente inexplicável entre Jekyll e Edward Hyde, um homem cuja presença desperta desconforto e cuja ligação com o médico parece difícil de compreender.
Não é preciso contar muito mais.
Parte da experiência do livro está justamente em observar Utterson tentando reunir informações e encontrar alguma explicação para aquilo que parece não se encaixar.
Jekyll pertence a um círculo respeitável. Utterson também. São homens associados a profissões, relações sociais e comportamentos que carregam determinado peso naquela sociedade.
Por isso, durante a leitura, comecei a enxergar Utterson quase como uma régua.
Não necessariamente uma divisão simples entre o bom e o mau, mas uma referência para aquilo que aquela sociedade considera correto, esperado e respeitável.
A própria imagem da justiça ajuda a pensar nisso: balança, peso, medida. Utterson observa, compara, procura equilíbrio e tenta entender algo que parece escapar daquilo que conhece.
Quando alguém se torna outra pessoa sem deixar de ser a mesma
Foi aqui que O Médico e o Monstro mais me interessou.
Jekyll e Hyde parecem duas pessoas completamente diferentes.
E, ao mesmo tempo, essa diferença não elimina a pergunta que permanece por trás da história: até onde podemos realmente separar partes de uma mesma pessoa?
Alguém se torna outra pessoa, mas na verdade continua sendo a mesma.
Durante parte da leitura, torci por Jekyll.
Não porque eu imaginasse que todas as suas escolhas estivessem corretas, mas porque não quis aceitar imediatamente a interpretação pronta de que existia simplesmente um médico de um lado e um monstro do outro.
Também havia curiosidade em entender o que ele realmente procurava.
A experiência que conduz a história não me parece interessante porque alguém deseja simplesmente transformar-se em um monstro. Ela é mais perturbadora justamente porque envolve a possibilidade de existir de outra maneira, separado da identidade, da reputação e das expectativas associadas ao nome Henry Jekyll.
E é aí que a história começa a ficar desconfortável.
Se alguém encontra uma maneira de agir como outra pessoa, aquilo que essa outra identidade faz deixa de ser responsabilidade de quem a criou?
A reputação também faz parte da história

O contexto vitoriano ajuda a compreender por que essa pergunta ganha tanto peso.
Jekyll não é apenas um homem qualquer. É um médico respeitado, inserido em um ambiente em que reputação, comportamento público e posição social têm importância.
Hyde não carrega essa mesma imagem.
Essa diferença permite que Stevenson trabalhe com algo que continua bastante reconhecível: a distância entre aquilo que mostramos socialmente e partes de nós que preferimos esconder.
Não precisei enxergar isso como uma divisão simplificada entre bem e mal.
A sociedade já é perfeitamente capaz de julgar comportamentos, aparências e pessoas. O que me interessou foi perceber o que acontece quando alguém tenta separar de si aquilo que não deseja associar à própria identidade.
Talvez o problema esteja justamente nessa tentativa de criar fronteiras tão perfeitas.
Uma história que já conhecemos antes de ler

Jekyll e Hyde ultrapassaram o livro. A ideia foi adaptada, reinterpretada, parodiada e incorporada à cultura popular tantas vezes que é difícil chegar à obra original sem alguma expectativa.
Foi o que aconteceu comigo.
Eu já conhecia a imagem da transformação antes de conhecer Stevenson. Minha tentativa durante a leitura foi descobrir se aquilo que eu havia aprendido pelas adaptações era realmente tudo o que havia na história.
Não era.
O livro é curto, mas abre questões que vão além da transformação física ou do impacto de uma experiência científica.
Há identidade, reputação, responsabilidade e julgamento. Há também uma pergunta bastante incômoda: quanto daquilo que atribuímos a uma “outra pessoa” realmente deixa de pertencer a nós?
Vale a pena ler O Médico e o Monstro?
Para mim, valeu principalmente porque eu precisava encontrar Stevenson por trás de Jekyll e Hyde.
As adaptações tornaram esses nomes familiares. O título brasileiro transformou médico e monstro numa associação praticamente automática. Mas a leitura ainda consegue produzir dúvida, especialmente quando deixamos de procurar uma criatura e começamos a observar as pessoas.
O que encontrei não foi simplesmente uma história sobre alguém bom que se transforma em alguém mau.
Encontrei duas identidades que parecem completamente diferentes e, justamente por isso, tornam mais difícil escapar de uma constatação:
por mais diferentes que pareçam, continuam pertencendo à mesma história — e à mesma pessoa.
Fontes consultadas:
- Project Gutenberg — The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde — O catálogo também confirma Stevenson como autor e a publicação original em 1886.
- BFI — The Nutty Professor — o British Film Institute trata o filme de Jerry Lewis de 1963 explicitamente como uma variação cômica de Jekyll e Hyde.
- Penguin-Companhia — O Médico e o Monstro — edição brasileira da obra, com tradução de Jorio Dauster.

