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Uma mesa, uma xícara e alguma coisa para ler. A imagem parece tão natural que talvez a gente nem pense muito sobre ela.
O que está dentro da xícara pode ser café, mas também poderia ser chá ou outra bebida. O que está sobre a mesa também mudou com o tempo. Um jornal, um livro, folhas escritas à mão. Hoje, um e-reader, um tablet, um celular ou um notebook podem ocupar o mesmo espaço.
O café, porém, permaneceu no nosso imaginário como companheiro da leitura e da escrita.
A escrita nunca dependeu de estantes particulares ou escritórios confortáveis. Longe do ambiente doméstico, o trabalho da mente pedia apenas o essencial: uma mesa qualquer e o espaço de um instante.
Quando os cafés também eram lugares de informação

Na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII, os coffeehouses se tornaram espaços importantes de circulação de notícias e ideias. Jornais e panfletos faziam parte daquele ambiente, assim como as conversas provocadas pelo que estava sendo lido.
Um texto inglês publicado em 1673 já descrevia o coffeehouse como um lugar associado a notícias, gazetas, panfletos e pessoas que os liam. Pesquisas históricas da Universidade de Oxford também mostram que alguns estabelecimentos mantinham livros e panfletos e procuravam oferecer diferentes jornais aos clientes.
Não era, portanto, apenas uma questão de alguém entrar por acaso em um café levando seu próprio livro.
A leitura e a informação faziam parte da vida de alguns desses lugares.
Isso também ajuda a entender por que o café adquiriu uma ligação tão duradoura com conversas, debates e produção intelectual. Em uma época na qual informação e livros não estavam disponíveis com alguns toques em uma tela, compartilhar jornais, textos e conversas tinha outro significado.
A xícara estava sobre a mesa, mas ao redor dela circulavam ideias.
Cafés que entraram para a história da literatura
Essa relação continuou e ganhou outras formas.
Em Paris, alguns cafés se tornaram conhecidos justamente pela presença de escritores e artistas. O Les Deux Magots é um dos exemplos mais famosos.
O estabelecimento tornou-se café em 1884 e teve entre seus frequentadores escritores como Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé. Mais tarde, outros nomes da literatura e da vida intelectual passaram por suas mesas. Simone de Beauvoir chegou a escrever ali Os Mandarins, romance que recebeu o Prêmio Goncourt.
As cafeterias contemporâneas também podem oferecer algo bastante simples e valioso: uma mesa fora de casa. Mas há algo mais interessante na relação entre cafés e escritores: eles podiam funcionar como lugares de encontro e também de trabalho e criação.
A escrita nunca dependeu de estantes particulares ou escritórios confortáveis. Longe do ambiente doméstico, o trabalho da mente pedia apenas o essencial: uma mesa qualquer e o espaço de um instante.
E o Brasil também teve suas mesas literárias

No Rio de Janeiro, a Confeitaria Colombo, inaugurada em 1894, tornou-se ponto de encontro de escritores, intelectuais e políticos.
Sua história se cruza com o ambiente literário da cidade em que vivia Machado de Assis e com escritores ligados à Academia Brasileira de Letras. A própria ABL já descreveu a Colombo como uma espécie de “filial” informal da instituição.
É um exemplo brasileiro importante porque mostra que essa relação entre estabelecimentos, escritores e circulação de ideias não pertence apenas à imagem que construímos dos cafés europeus.
Também por aqui existiram mesas em torno das quais pessoas conversaram, discutiram acontecimentos, encontraram outros escritores e participaram da vida cultural de seu tempo.
Do jornal sobre a mesa ao notebook
É claro que uma cafeteria do século XXI não é um coffeehouse londrino do século XVII.
Mas algumas cenas continuam curiosamente familiares.

Hoje podemos entrar em uma cafeteria e encontrar alguém trabalhando no notebook, estudando pelo tablet, escrevendo, lendo um livro ou olhando para o celular.
Aliás, ficou mais difícil saber quem está lendo.
Um livro aberto deixa isso evidente. Uma pessoa olhando para o celular pode estar lendo uma reportagem, um conto ou um romance. Alguém com fones de ouvido pode estar ouvindo um audiolivro. Um e-reader substitui centenas de volumes sem ocupar mais espaço sobre a mesa.
A tecnologia mudou os objetos que carregamos, mas não eliminou necessariamente a vontade de encontrar um lugar agradável para permanecer durante algum tempo.
As cafeterias contemporâneas também podem oferecer algo bastante simples e valioso: uma mesa fora de casa.
Para algumas pessoas, é um ponto de encontro. Para outras, um ambiente para estudar. Há quem trabalhe, escreva ou simplesmente faça uma pausa antes de continuar o dia.
E, claro, há quem leia.
Quando o próprio café entra na literatura
Depois de acompanhar leitores e escritores durante tanto tempo, não surpreende que as cafeterias também tenham se transformado em cenários literários.
Um exemplo contemporâneo é Antes que o Café Esfrie, de Toshikazu Kawaguchi. Na obra, uma pequena cafeteria japonesa deixa de ser apenas o lugar onde personagens se encontram e participa diretamente da atmosfera fantástica da história.
Não é difícil compreender por que um café funciona tão bem como cenário.
Pessoas chegam e partem. Algumas estão sozinhas; outras esperam alguém. Conversas começam diante de uma xícara. Há encontros, despedidas, lembranças e períodos de silêncio.
Uma cafeteria pode reunir desconhecidos em um mesmo espaço sem exigir que eles estejam fazendo a mesma coisa.
Talvez seja justamente por isso que ela tenha se tornado um cenário tão natural para a literatura.
Afinal, por que livros e café combinam tanto?
Não é necessário tomar café para gostar de livros. E uma cafeteria não precisa ser o lugar ideal de leitura para todas as pessoas.
O café é apenas parte dessa história.

O que parece atravessar os séculos é outra coisa: a necessidade de encontrar tempo e espaço para ler, escrever, conversar e pensar.
Os jornais impressos dos antigos coffeehouses deram lugar a telas. Cadernos dividem a mesa com notebooks. Livros físicos convivem com e-books e audiolivros.
E a xícara também pode ter mudado.
Ainda assim, continuamos reconhecendo imediatamente aquela imagem: uma mesa, alguma coisa para ler e uma bebida ao lado.
Talvez livros e café tenham atravessado tanto tempo juntos justamente porque ambos nos convidam, cada um à sua maneira, a permanecer um pouco mais.
Fontes consultadas:
- University of Oxford — para os coffeehouses, circulação de jornais, panfletos, livros e informação.
- Texto inglês de 1673 — como fonte histórica primária para a descrição dos coffeehouses.
- Les Deux Magots — história oficial — para 1884, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé e Simone de Beauvoir.
- Academia Brasileira de Letras — para Confeitaria Colombo e sua relação com o ambiente literário brasileiro.

