Literatura que permanece.

Há obras tão antigas que começamos a lê-las esperando encontrar um mundo completamente distante do nosso. Com a Odisseia, aconteceu comigo quase o contrário.

Quanto mais avançava, mais encontrava situações, estruturas e maneiras de contar histórias que me pareciam familiares.

Eu já havia passado por clássicos escritos muito depois, como partes de As Mil e Uma Noites e As Viagens de Gulliver. Conhecia histórias de viajantes lançados em territórios desconhecidos, criaturas extraordinárias, perigos, naufrágios, povos estranhos e personagens que precisam recorrer muito mais à inteligência do que à força para continuar vivos.

A sensação inicial poderia ser simplesmente: eu já vi isso em algum lugar.

Mas há uma inversão curiosa quando estamos diante da Odisseia. Ela é muito mais antiga do que grande parte das obras que hoje nos parecem familiares. Isso não significa que todo escritor posterior tenha copiado Homero, nem que seja possível estabelecer uma linha direta entre histórias que surgiram em épocas e culturas diferentes. Motivos narrativos podem circular, transformar-se, reaparecer e também surgir de maneiras independentes.

Ainda assim, ler a Odisseia depois de conhecer tantas histórias posteriores produz uma experiência estranha e fascinante: encontramos muito cedo na tradição literária formas de aventura que continuariam atravessando os séculos.

Antes de ser um livro

Poeta com uma lira recita diante de um grupo de ouvintes em uma cidade da Grécia Antiga.
Imagem: representação da tradição oral ligada à poesia épica grega, anterior à forma escrita pela qual hoje conhecemos a Odisseia.

Odisseu e Ulisses são o mesmo personagem. Odisseu vem do nome grego Odysseus, enquanto Ulisses deriva da forma latina Ulixes/Ulysses, que se tornou tradicional em português. Por isso, dependendo da tradução ou do estudo consultado, o herói da Odisseia pode aparecer com qualquer um dos dois nomes. Neste texto, uso Ulisses, forma bastante conhecida entre leitores brasileiros.

O prefácio da edição que acompanhei dedica bastante espaço às discussões em torno da origem e da transmissão dos poemas atribuídos a Homero. É um contexto importante porque hoje pegamos a Odisseia e enxergamos um livro dividido em 24 cantos, com começo, meio e fim.

A tradição homérica esteve ligada durante muito tempo à oralidade e à performance. Estudos sobre poesia épica oral mostraram como fórmulas, repetições, estruturas recorrentes e padrões métricos permitiam a composição e a transmissão de narrativas extensas sem que seja necessário imaginar alguém simplesmente decorando, palavra por palavra, um livro previamente escrito.

O texto que chegou até nós também atravessou uma longa história de transmissão. Papiros, citações antigas, comentários e manuscritos preservaram variantes, e o trabalho filológico moderno compara esses testemunhos para estabelecer edições críticas. Projetos contemporâneos continuam estudando essas variantes e as diversas fases pelas quais os poemas homéricos passaram.

Alguns versos chegaram inclusive a ser considerados interpolações por determinados estudiosos, enquanto outros permanecem objeto de debate. O final da própria Odisseia é um exemplo conhecido de uma discussão que começou ainda na Antiguidade e continua sendo examinada pela crítica moderna.

Isso mudou também a maneira como passei a perceber as repetições.

Ao ouvir a obra, determinadas construções retornam. Personagens repetem ações, fórmulas reaparecem e certas situações parecem obedecer a um ritmo conhecido. Para um leitor moderno, acostumado a associar repetição àquilo que deveria ser cortado numa revisão, isso pode inicialmente chamar atenção.

Mas na poesia ligada à tradição oral, a repetição também tem função.

E existe algo muito natural nisso quando a obra é ouvida: reconhecemos uma estrutura, antecipamos um movimento e prestamos atenção ao que virá depois dela.

A Odisseia não chegou até nós apenas como uma história. Ela carrega também marcas de uma maneira muito antiga de contar e ouvir histórias.

Uma história cheia de outras histórias

Ulisses e seus companheiros enfrentam o ciclope Polifemo dentro de uma caverna.
Imagem: representação do encontro de Ulisses e seus companheiros com Polifemo, um dos episódios narrados pelo próprio herói na Odisseia.

Talvez por isso uma das coisas que mais me chamaram a atenção tenha sido perceber quantas histórias existem dentro da própria Odisseia.

A narrativa principal pode ser resumida de maneira simples: Ulisses tenta voltar para casa depois da Guerra de Troia.

Mas o poema não se limita a acompanhar esse retorno em linha reta.

Personagens contam acontecimentos anteriores, lembram outras pessoas, relatam destinos, recuperam episódios da guerra e narram experiências que aconteceram longe da ação presente. Em determinado momento, o próprio Ulisses assume por bastante tempo a posição de narrador das aventuras que viveu.

Isso me lembrou outra experiência de leitura, embora as duas obras pertençam a tradições e épocas muito diferentes: As Mil e Uma Noites, em que uma narrativa pode abrir espaço para outra, que, por sua vez, contém mais uma história.

Não é necessário estabelecer uma influência direta entre elas para perceber algo que ambas demonstram muito bem: uma história também pode existir dentro de outra história.

E, na Odisseia, isso ganha uma importância especial porque Ulisses não é apenas o personagem que vive aventuras.

Ele também sabe contá-las.

Ulisses, contador de histórias

Ulisses ao lado de Penélope e Telêmaco, com a deusa Atena representada em armadura.
Imagem: representação de Ulisses com Penélope, Telêmaco e Atena, personagens fundamentais em sua trajetória de retorno a Ítaca.

Esse foi um dos aspectos de Ulisses de que mais gostei.

Sua principal característica não é simplesmente ser destemido ou fisicamente capaz. Ele observa, calcula, disfarça-se, espera e adapta seu comportamento às circunstâncias.

E conta histórias. Algumas são verdadeiras. Outras são cuidadosamente inventadas.

Quando precisa ocultar a própria identidade, Ulisses é capaz de construir outra vida para si: origem, acontecimentos, encontros e explicações suficientemente convincentes para aquele que o escuta.

A narrativa passa a ser mais uma de suas ferramentas. É justamente por isso que sua relação com Atena me parece tão interessante.

A deusa conhece o tipo de homem que está protegendo. Muitas vezes ela não precisa ensinar Ulisses a ser astuto, a esconder quem é ou a esperar o momento adequado. Ela sabe que ele tende naturalmente a agir dessa maneira.

Os dois parecem entender a mesma linguagem da estratégia.

Ulisses pode estar diante de um problema impossível e ainda procurar outra saída. Pode esconder o próprio nome quando isso é necessário e construir uma história para sobreviver.

Mas essa inteligência não significa que ele seja perfeito. O episódio de Polifemo talvez mostre isso melhor do que qualquer explicação.

Ulisses consegue elaborar um plano extraordinário para escapar de uma situação mortal. No entanto, depois de conseguir fugir, toma uma decisão que acaba trazendo consequências enormes para sua viagem.

A mesma personalidade capaz de salvá-lo também pode colocá-lo novamente em perigo.

Como foi ler Odisseia

Ler a Odisseia foi encontrar uma obra ao mesmo tempo distante e familiar. Seu mundo pertence a outra época, mas sua maneira de criar aventuras, encaixar narrativas e construir um herói capaz de sobreviver também pelas palavras continua reconhecível.

Nem tudo produz o mesmo impacto para o leitor moderno. As repetições, os relatos dentro de outros relatos e as intervenções constantes dos deuses exigem uma mudança de ritmo e de expectativa. Quando compreendemos que essas características também carregam marcas da tradição oral, porém, elas deixam de parecer apenas estranhas e passam a fazer parte da experiência da obra.

A Odisseia atravessou séculos não somente pelas criaturas, viagens e perigos que apresenta. Ela permanece porque também fala sobre a necessidade de voltar, de preservar uma identidade e de encontrar uma maneira de continuar contando a própria história.

Fontes consultadas:

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